Ao todo, 29 estabelecimentos foram vistoriados; lojas do Mercado Central de BH, ponto turístico da capital, também foram alvo
Gabriela Neves e Amanda Antunes/Itatiaia

Imagem ilustrativa. • Reprodução | Freepik
Uma operação integrada das forças de segurança de Minas Gerais revelou um cenário preocupante de irregularidades no comércio de bebidas alcoólicas em diversas cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A terceira fase da Operação Baco, realizada ao longo do mês de abril, resultou na apreensão de quase 2 mil litros de produtos considerados impróprios para consumo. Ao todo, foram fiscalizados 29 estabelecimentos, entre bares, depósitos e lojas, inclusive em um dos principais cartões-postais da capital, o Mercado Central.
A operação, que reúne Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) e órgãos de fiscalização sanitária e agrícola, tem como foco desarticular a cadeia de produção e distribuição de bebidas adulteradas ou sem registro junto ao Ministério da Agricultura. Segundo as autoridades, o problema vai além de infrações administrativas e pode estar diretamente ligado ao financiamento do crime organizado.
Ligação com esquemas criminosos
O porta-voz da Polícia Militar, capitão Rafael Veríssimo, destacou que a comercialização de bebidas adulteradas pode funcionar como mecanismo para lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas. “Essas articulações de organizações criminosas voltadas para o tráfico de drogas utilizam dessa comercialização de bebidas adulteradas muitas das vezes até para crimes como lavagem de dinheiro”, afirmou.
A investigação também aponta reincidência entre alguns alvos. Um depósito, já fiscalizado em fases anteriores da operação, voltou a apresentar irregularidades.
Mercado Central vira alvo
Entre os locais vistoriados durante a operação, lojas do Mercado Central de Belo Horizonte chamaram atenção. O espaço é referência turística e gastronômica da cidade. Segundo os dados apresentados, os estabelecimentos do local representaram cerca de um terço das inspeções, mas concentraram apenas 5% do volume total de bebidas apreendido.
As irregularidades identificadas variam desde ausência de selo de controle e falhas na rotulagem até suspeitas mais graves, como adulteração do conteúdo. Mesmo nos casos considerados “menos graves”, as bebidas foram imediatamente retiradas de circulação. “Qualquer coisa que a gente vai consumir é muito sério. Então, qualquer coisa que tem de errado naquela garrafa, por mais que não haja uma suspeita do líquido ser adulterado, você apreende essa garrafa ou inutiliza ela. A gente não pode dar essa margem para uma intoxicação das pessoas”, explicou Bernardo Naves, superintendente de Integração e Planejamento Operacional da SEJUSP.
Risco à saúde e investigação em andamento
De acordo com a delegada Renata, da Polícia Civil de Minas Gerais, parte do material apreendido ainda passará por perícia técnica para confirmação de adulteração. Os exames laboratoriais devem identificar, por exemplo, se o teor alcoólico corresponde ao indicado ou se há substâncias não declaradas.
Enquanto isso, a atuação imediata das equipes tem sido retirar os produtos suspeitos do mercado. “O que está impróprio é descartado. A investigação segue para responsabilizar os envolvidos”, afirmou.
As apurações têm como base o Código de Defesa do Consumidor, especialmente no que diz respeito à comercialização de produtos impróprios para consumo. Apesar disso, até o momento, não houve registro de prisões nesta fase da operação, embora autos de infração tenham sido formalizados.
As ações se concentraram em Belo Horizonte (região central e bairro Santa Amélia, na Pampulha), Contagem (Eldorado) e Nova Lima (Jardim Canadá), mas há previsão de expansão para o interior do estado nas próximas fases.
Alerta ao consumidor
Além da repressão, as autoridades reforçam o papel da população no combate às irregularidades. A orientação é desconfiar de bebidas com aparência alterada, lacres violados ou procedência duvidosa. Denúncias podem ser feitas pelos telefones 190 e 181.
A operação também tem investido em ações educativas, como palestras e campanhas de conscientização, diante de um problema que, segundo especialistas, ainda é subestimado. Dados da Associação Brasileira de Bebidas indicam que tanto destilados quanto cervejas podem ser alvo de falsificação, contrariando a percepção comum de que apenas bebidas mais fortes oferecem risco.