Presidentes discutiram tarifas, combate ao crime e guerras na Ucrânia e no Oriente Médio; equipes dos dois países voltarão à mesa
PorJoão Pedro Melo, Brasília

Encontro de Lula e Trump na Malásia. • Official White House Photo by Daniel Torok.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na manhã desta sexta-feira (21). A ligação durou uma hora e 20 minutos e, segundo o governo brasileiro, ocorreu em tom “amistoso e cordial”.
A conversa teve como principal tema a relação entre Brasil e Estados Unidos, especialmente as novas tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros. Lula contestou as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para a adoção das medidas e afirmou que as alegações são infundadas.
Entre os argumentos citados pelos Estados Unidos estão questões relacionadas a desmatamento, acordos preferenciais de comércio, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos produzidos com trabalho forçado.
Durante a conversa, Lula afirmou que as tarifas prejudicam tanto o Brasil quanto os Estados Unidos e defendeu a retomada das negociações. Para o presidente brasileiro, manter os canais de diálogo abertos é a melhor alternativa para os dois países.
Trump concordou com a necessidade de preservar relações comerciais fortes entre Brasil e Estados Unidos e propôs que as equipes dos dois governos voltem a se reunir “o mais brevemente possível”.
Outro assunto discutido pelos presidentes foi a segurança pública e o combate ao crime organizado.
Lula reiterou o interesse brasileiro em ampliar a cooperação com os Estados Unidos e afirmou que as organizações criminosas representam uma ameaça cotidiana, principalmente para as populações mais vulneráveis.
O presidente, no entanto, fez uma ressalva em relação à classificação de grupos criminosos como organizações terroristas. Segundo Lula, o Brasil possui instrumentos próprios para combater essas organizações e não precisa de uma classificação especial para isso.
O presidente também apresentou a estratégia brasileira de asfixia financeira do crime organizado. Segundo o governo, cerca de 17 bilhões de reais já foram apreendidos.
Lula citou ainda os planos de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima e mencionou a aprovação da chamada Lei Antifacção, que amplia mecanismos para apreensão de bens e passaportes.
Também foi discutida uma proposta de emenda à Constituição que amplia a participação do governo federal na segurança pública, em parceria com os estados.
Lula destacou ainda a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, que reúne representantes dos países amazônicos.
Trump, segundo o governo brasileiro, se mostrou disposto a ampliar a cooperação bilateral na área de segurança e afirmou que pretende mobilizar funcionários de alto escalão para dar continuidade às conversas.
Ucrânia, Oriente Médio e ONU
Lula e Trump também trocaram impressões sobre conflitos internacionais, principalmente as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
Os dois presidentes concordaram sobre a necessidade de buscar uma solução negociada para a guerra entre Rússia e Ucrânia, que se aproxima de cinco anos.
Durante a conversa, Trump falou ainda sobre as perspectivas de resolução do conflito envolvendo o Irã.
Lula, por sua vez, criticou a atuação do Conselho de Segurança das Nações Unidas e defendeu uma reunião extraordinária do órgão para discutir caminhos diplomáticos para as crises internacionais.
Ao defender a via diplomática, Lula afirmou que os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas os que conseguem colocar fim aos conflitos.
A ligação desta sexta-feira ocorre em um momento de forte tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos. A retomada das negociações entre as equipes dos dois países abre espaço para novas discussões sobre as tarifas e sobre outros pontos da agenda bilateral.