Ônibus não estava habilitado para realizar transporte interestadual de passageiros e tombou em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, na madrugada deste domingo (16)
PorRebeca Nicholls, Maria Antônia Rebouças e Vinícius Brito/Itatiaia

Sobreviventes de acidente com dez mortos na BR-040 culpam motorista: ‘Acelerou muito’ • Imagens cedidas à Itatiaia
“Eu só orei e falei: ‘vai acontecer o pior’”, contou a administradora Eduarda Josefina Elói Bittencourt, de 25 anos, sobre os momentos que antecederam o acidente com um ônibus de turismo que deixou dez mortos em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, na madrugada deste domingo (16).
Em entrevista à Itatiaia, a administradora contou que passageiros teriam pedido diversas vezes para que o motorista diminuísse a velocidade durante a viagem. Segundo ela, o ônibus, que havia saído de Belo Horizonte com destino a Copacabana, trafegava em alta velocidade desde a saída da capital mineira.
Eduarda estava acompanhada do noivo, que também ficou ferido. Ela afirmou que, durante a descida da serra de Petrópolis, percebeu que o veículo estava balançando e ouviu novamente passageiros reclamando da velocidade. “O pessoal já começou a falar: motorista está correndo demais e balançando, balançando.”
Segundo a passageira, o ônibus de dois andares seguia em alta velocidade. Ela afirmou ter ouvido relatos de pessoas que estavam na estrada de que o veículo teria passado a mais de 100 km/h, mas ressaltou que não sabe confirmar a velocidade.
A denúncia de Eduarda é compartilhada por Uarley Francisco de Assis, de 39 anos, que também estava no ônibus. De acordo com o sobrevivente, o motorista ignorou os pedidos dos passageiros para diminuir a velocidade.
“É negligência do motorista. (…) Nós já tínhamos avisado, quando ele pegou ele um pedaço da BR, primeiro instante, nós já estávamos pedindo para ele parasse de correr do jeito que ele tava correndo. Ele estava acelerando muito mesmo, cortando, cortou o carro fora da faixa dele, cortando, passando, saindo da faixa e correndo muito mesmo”, afirmou.
Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o ônibus não estava habilitado para realizar transporte interestadual de passageiros. A operação é caracterizada como transporte clandestino de passageiros.
Questionada sobre o motorista estar em alta velocidade, os advogados da empresa disseram que não farão manifestações sobre o caso. “Eventuais esclarecimentos e manifestações serão apresentados oportunamente nos autos dos processos dos quais a empresa venha a fazer parte”, afirmou.
A Itatiaia tenta contato com a defesa do motorista. O espaço segue aberto.
‘Eu só orei e falei: vai acontecer o pior
Ainda segundo Eduarda, durante a descida da serra de Petrópolis, o ônibus passou a balançar intensamente. “Eu lembro que eu estava com um fone, escutando música, eu estava cochilando. E aí, do nada, eu vi que o ônibus estava balançando muito.”
Pouco depois, o veículo teria perdido o controle e tombado. Eduarda afirmou que, naquele momento, as luzes do ônibus se acenderam e ela percebeu que o acidente aconteceria. “Eu só orei e falei: ‘Vai acontecer o pior’. (…) Quando eu falei ‘estou morta’, o ônibus já capotou.”
O veículo capotou durante a descida da serra. A passageira conseguiu deixar o ônibus e, já do lado de fora, tentou ajudar outras vítimas.
Noivo ficou ferido
Eduarda estava acompanhada do noivo, que também ficou ferido no acidente. Segundo ela, ele sofreu lesões no joelho e na região das costelas.
Após conseguir sair do ônibus, ela conta que sua principal preocupação era encontrar e retirar o companheiro do veículo.
“Minha sensação ali era que eu queria tirar ele dali. Eu e ele dali.”
O acidente deixou dez pessoas mortas. Entre as vítimas estão uma criança de sete anos e outras nove mulheres, com idades entre 19 e 53 anos. O ônibus transportava 47 passageiros, além dos dois motoristas, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Mudança de última hora
Eduarda contou que o grupo havia embarcado em Belo Horizonte após uma mudança de última hora na empresa responsável pelo transporte. Segundo ela, a passagem havia sido comprada por meio de um conhecido, que posteriormente informou que não poderia realizar a viagem e que os passageiros seriam colocados em outro ônibus.
Ela afirmou que pagou R$ 170 pela passagem e que não conhecia a empresa que realizou o transporte. Ainda segundo Eduarda, desde o início da viagem o motorista dirigia em velocidade que considerava excessiva. O ônibus fez algumas paradas para embarque de passageiros até chegar à Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte.
Depois, o veículo seguiu viagem em direção ao Rio de Janeiro. Durante uma parada em Juiz de Fora, passageiros teriam novamente pedido ao motorista que reduzisse a velocidade. “Já teve gente que falou também: ‘Moço, não pode, não corre’. (…) E o motorista ignorou e continuou correndo.”
Comunidade de BH em luto
Uarley Francisco de Assis é morador da Vila Acaba Mundo, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, onde também viviam três mulheres com idades entre 33 e 53 anos e uma criança de sete anos que morreram no acidente.
De acordo com o sobrevivente, a comunidade ficou arrasada com as mortes, já que o clima na vila é de família. “Aqui nós somos uma família. A empresa tem que olhar para isso. Ele destruiu não foi só uma família, destruiu o lugar. Ele não só destruiu uma família, destruiu várias famílias”, lamentou.
“A favela tá em luto. Todos estão em luto. Todos, não é só só uma família. Aqui nós somos unidos um pelo outros, nós não somos família só de sangue, nós somos família geral”, continuou.
À Itatiaia, a empreendedora Patrícia Roberta descreveu o clima de tristeza que tomou a Vila Acaba Mundo após a identificação das quatro vítimas. “É muito triste, muito mesmo, porque você vê as pessoas desde pequena, a Jennifer e a Priscila, eu conheço elas desde novinha, desde quando nasceu, e, de repente, acontece essa tragédia, a Luciana mora aqui, atrás da minha casa. Então, assim, é muito triste, muito mesmo, muito devastador. A gente se sente como se fosse uma pessoa da família mesmo. Estou, assim, chocada, chocada mesmo”, afirmou.
Ônibus fazia transporte clandestino, diz ANTT
O veículo envolvido no acidente, de placa AKY-3454, estava registrado em nome da Dinna Ellles Turismo, com comunicação de venda para a PIT Tur Transportes Ltda. Nenhuma das duas empresas possui autorização da ANTT para realizar o transporte interestadual.
A viagem teria sido organizada pela Estrela Guia Turismo, que também não é habilitada pela agência para esse tipo de operação.
O ônibus ainda tinha um adesivo da ANTT em nome da empresa Samara, que, segundo o órgão, também está inapta. A Polícia Civil informou que investiga as circunstâncias do acidente.
Com isso, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o ônibus não estava habilitado para realizar transporte interestadual de passageiros. Por isso, a operação foi caracterizada pelo órgão como transporte clandestino de passageiros.
Vítimas identificadas:
- Jhennifer Ferreira Carvalho, de 33 anos;
- Lavinia Eduarda Souza Dias, de 7 anos;
- Luciana Ferreira Carvalho, de 53 anos;
- Ketelyn Polyane Alves de Oliveira, de 19 anos;
- Keyla Perucci da Silva, de 35 anos;
- Priscilla de Souza Braz, de 33 anos;
- Natália Fimiano de Barros, de 34 anos;
- Dayanna de Lima Viana, de 36 anos;
- Alessandra Pereira, de 34 anos;
- Vania Elida de Jesus Crispim, de 33 anos.
Nota da empresa
A Estrela Guia manifesta profundo pesar pelo grave acidente ocorrido e se solidariza com as vítimas, seus familiares e todos os envolvidos neste momento de profunda dor e consternação.
Neste momento difícil, a empresa está prestando apoio às famílias das vítimas, inclusive colaborando com o translado dos corpos para seus locais de destino, bem como disponibilizando suporte para o transporte dos sobreviventes até suas respectivas residências, conforme as necessidades de cada família.
A Estrela Guia esclarece ainda que não dispõe, neste momento, de informações atualizadas sobre o estado de saúde dos passageiros que permanecem internados. As informações médicas são repassadas pelos hospitais exclusivamente aos familiares, em respeito à privacidade e ao sigilo das informações dos pacientes.
A empresa reafirma que está colaborando integralmente com as autoridades responsáveis pela apuração dos fatos e adotando todas as providências possíveis para prestar assistência às vítimas, aos sobreviventes e às suas famílias.
A Estrela Guia lamenta profundamente o ocorrido e expressa sua solidariedade a todas as famílias que enfrentam este momento de dor. Neste momento de tristeza, nossa prioridade é acolher, apoiar e prestar toda a assistência possível às pessoas atingidas por esta tragédia.
Estrela Guia
Assessoria Jurídica: Leão Braz Advogados – Dr. Aroldo Leão Braz