O ex-narrador e apresentador da Itatiaia Milton Naves morreu neste sábado (16) aos 70 anos
Oswaldo Diniz e Rebeca Nicholls/Itatiaia

Respeitado pela sua imparcialidade, Milton Naves consolidou uma carreira de sucesso na Itatiaia: permaneceu no ar por quatro décadas e ganhou o bordão de ‘Show de Bola’ • Arquivo pessoal
O ex-narrador e apresentador Milton Naves morreu neste sábado (16) aos 70 anos, em Belo Horizonte. Em entrevista à Itatiaia, o filho dele, Guilherme Naves, falou sobre o legado de compromisso, responsabilidade e ética deixado pelo pai. O velório de Milton Naves ocorreu até as 19h, no Funeral House, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte.
“Eu acho que só hoje parece que eu tenho a real dimensão do tamanho do meu pai, a maneira como ele é querido, parece que todo mundo combinou de falar a mesma coisa sobre o quanto que ele é íntegro, ético, amigo. Enfim, essa parte dessas homenagens é a parte que mais dói, assim, porque, enfim, ele merecia. A parte ruim disso tudo aqui é ele não poder estar vendo, ele não poder estar participando materialmente”, disse Guilherme Naves.
Ainda conforme o filho do apresentador, Milton Naves fazia tudo pela família, sendo referência também dentro de casa. “Fez tudo; tudo que na cabeça dele ele entendia que era preciso e possível ser feito, ele fez. Uma entrega sem medida”, afirmou.
Outra filha do radialista, a advogada Caroline Naves lembrou das memórias com o pai, como das vezes em que ele acompanhava entrevistas dela em programas de rádio. “Ele era um fã dos filhos, e a gente, obviamente, grandes fãs dele. Quando eu dava entrevista para a rádio, ele ia para o estacionamento me esperar, porque ele não gostava de ficar ouvindo, ficava nervoso, mas sempre me dava carona de volta para o escritório”, relatou.
A advogada contou, ainda, que o pai foi a pessoa que mais comemorou a aprovação dela na faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Meu pai era extremamente comprometido, dedicado. Tudo que ele se propunha a fazer, ele dava o melhor dele, e ele também tinha uma admiração muito grande pelo direito. Quando eu passei no vestibular na UFMG eu acho que ele foi a pessoa que mais comemorou, e essa é a principal lembrança que eu tenho dele, o dia da comemoração, quando saiu o resultado. Ele era muito orgulhoso disso”, lembrou.
Caroline afirmou que as mensagens de carinho sobre o pai estão fortalecendo ela em meio ao momento de luto. “Eu estou tentando ler esses recados, porque eles estão me dando uma força sobrenatural. Eu queria agradecer essas pessoas que estão comentando. Quando eu leio as mensagens, sempre tem um caso para contar, vários ouvintes falando de ouvi-lo, e disso fazer parte da vida da pessoa. Eu não consigo agora expressar o tanto que isso é especial”, agradeceu.
Ainda conforme a advogada, o pai deixa um legado sobre a importância de correr atrás dos próprios sonhos. “Ele sempre acreditou em tudo que a gente dizia para ele que era importante. E se eu puder guardar isso para fazer com os meus filhos, eu acho que é a principal herança que ele me deixa: acreditar quando alguém te diz que sonha em alguma coisa e que tem algum propósito, oferecer os meios para que essa pessoa alcance, porque, de fato, eu e meu irmão alcançamos”, contou.
Milton Naves, voz histórica e marcante da Itatiaia
Milton Amaral Naves nasceu em Ilicínea, no sul de Minas, em 26 de dezembro de 1955. Ainda na infância, mudou-se com a família para Alfenas. Desde os 10 anos de idade, manifestava o desejo de ser locutor esportivo. Exatamente por isso, fazia questão de iniciar suas transmissões com a frase que o marcou para sempre: “estou fazendo o que gosto, transmitindo um jogo de bola”.
Dono de uma voz potente, teve a primeira experiência como radialista aos 17 anos. Milton concorreu a uma vaga na Rádio Cultura de Alfenas e superou 34 universitários, quando ainda cursava o Ensino Médio. Em 27 de fevereiro de 1977, transmitiu o primeiro jogo da carreira: Flamengo X Caldense, pela Taça Cidade de Alfenas, na inauguração do Estádio Francisco Leite Vilela. Naquele dia, narrou os lances de craques como Junior, Carlos Alberto Torres, Adilio e Tita.
Não demorou muito para Milton Naves ser observado pelas grandes emissoras da capital Belo Horizonte. Em 1979 foi contratado pela Rádio Guarani. Menos de um ano depois, já estava na Itatiaia, após convite de Osvaldo Faria, contratado para ser narrador, redator, apresentador e repórter.
Respeitado pela sua imparcialidade, Milton Naves consolidou uma carreira de sucesso na Itatiaia: permaneceu no ar por quatro décadas e ganhou o bordão de “Show de Bola”. Nesse período, comandou o Rádio Esportes, programa líder de audiência na hora do almoço. Apresentou o programa pela última vez em 30/06/2022. Versátil e polivalente, também era apresentador titular do Troféu Guará, principal premiação do esporte mineiro.
Em mais de quatro décadas de carreira, o “Show de Bola” cobriu 9 Copas do Mundo. A primeira em 1982, na Espanha, e a última em 2018, na Rússia. Nesse período, a única ausência foi no Mundial de 1986. Das 9 Copas, narrou 6 finais, incluindo o primeiro tempo da decisão de 2002 entre Brasil e Alemanha, no Japão, ano do pentacampeonato mundial da seleção brasileira. Em casa, ele guardava, com carinho e orgulho, todas as credenciais dos grandes eventos que cobria. Milton Naves esteve em 13 edições da Copa América e rodou por aproximadamente 50 países.