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Boa tarde - Itabira, domingo, 25 de agosto de 2019 Hora: 17:08

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Lembranças de Geraldo Camilo Marques: O primeiro trabalhador da Vale
09/06/2019

Geraldo Camilo Marques é o grande símbolo de uma época em Itabira: o início do ciclo da mineração de ferro. A sua voz firme e memória privilegiada camuflam a idade: 97 anos. O tempo deixou marcas apenas na locomoção. Esse homem, quase centenário, utiliza uma bengala para caminhar. Mas isso não é uma barreira física para esse morador do bairro Caminho Novo, que anda o dia inteiro pelas ruas da cidade.

A história profissional de Geraldo Marques se confunde com a própria história da Vale. Ele explica essa coincidência com a voz pausada: “a Cia Vale do Rio Doce (CVRD) foi fundada em 12 de junho de 1942. Eu entrei na empresa no dia 5 de julho. Tinha 22 anos de idade nessa ocasião”, recorda o primeiro empregado da mineradora.

Ele começou a trabalhar ainda muito cedo, na roça. “Eu nasci nas proximidades de uma antiga barragem, um pouco antes do bairro Pedreira, no caminho para Santa Maria. Ali eu ajudava nas tarefas de casa. Com 15 anos, fui trabalhar numa fazenda pertinho da casa de meus pais”, relembra.

Quando completou 18 anos, foi embora para a cidade de São João do Morro Grande, atual Barão de Cocais. O jovem arrumou emprego numa empreiteira que fornecia minério para a siderúrgica Metalusina. “Naquele tempo, o nome do lugar era São João do Morro Grande. Muitos anos mais tarde é que virou Barão de Cocais. Eu fui quebrar pedras de minério para uma empreiteira. Eu trabalhei lá durante três anos”, resume.

“DEUS ESCOLHEU ESSA COMPANHIA (A CVRD) PARA VIR PRA NOSSA CIDADE, E DEUS ESCOLHEU ESSE POVO PARA CONVIVER COM ELA.”

Nessa ocasião, alguém deu um conselho que mudaria totalmente os rumos da vida do “quebrador de pedras”:

- Por que você não volta para a sua terra? Apareceu uma companhia nova para explorar o minério de Itabira. Vai ser muito melhor para você.

Geraldo não pensou duas vezes.

Retornou à sua terra natal de mala e cuia: “eu me fichei na nova companhia e comecei trabalhar quebrando pedras de minério, na mina do Cauê. Era uma atividade bastante desgastante. Quando vi aquele tipo de serviço pela primeira vez, fiquei apavorado. E logo pensei comigo: eu não vou conseguir ficar nem um ano nesse lugar. Em Barão de Cocais eu já quebrava pedras, mas o minério de lá era muito mais macio”, explica.

Havia mais de mil pessoas triturando a compacta hematita com enormes marretas. A carga horária era bastante pesada. A jornada era de segunda a sábado. O turno único começava às 6 horas e terminava às 17horas. O intervalo para o almoço durava uma hora. Não existiam equipamentos para proteção individual. Os trabalhadores usavam chapéus de palha ou lenços amarrados à cabeça para se protegerem. Também não havia luvas e botinas. “Acho que Deus Protegia a Vale e a todos nós, pois nunca aconteceu um acidente mais grave naquela época”, acredita sr Geraldo.

O mineral triturado pelos empregados era colocado nas carrocerias de madeira de pequenos caminhões. O material granulado era descarregado diretamente nos vagões de uma “maria fumaça”. Rudimentares shuts de madeira foram utilizados para essa finalidade. Esse carregamento acontecia na área do atual estádio Israel Pinheiro.

E o que o trabalhador fazia depois de um exaustivo dia de serviço? Geraldo Marques abre um largo sorriso quando fala sobre isso. “ A gente só pensava em tomar um banho de bacia e ir descansar. O batente era muito duro. Nós morávamos num precário alojamento de madeira coberto com capim, ali em frente ao campo do Valério, no começo da atual estrada 105. Era muita gente num pequeno espaço. Cada dez metros eram ocupados por quatro pessoas” , detalha com bastante precisão.

 “DE REPENTE ELE (O PICO DO CAUÊ) DESAPARECEU. NINGUÉM FALOU NADA, NINGUÉM RECLAMOU DE NADA. E O PICO SUMIU PARA SEMPRE.”

Geraldo Marques foi testemunha de um dos momentos mais dramáticos da história de Itabira: a destruição do Pico do Cauê. “O Pico começou a ser derrubado em 1946. Eu trabalhava bem debaixo dele. De repente, ele desapareceu. Ninguém falou nada, ninguém reclamou de nada. E o Pico sumiu para sempre”, lamenta.

Durante certo período, a velha Cia Vale do Rio Doce passou por uma grave crise financeira. Foi uma turbulência muito forte. A mineradora quase faliu. “Nessa ocasião, nós ficamos oito meses sem receber salários. A gente ganhava apenas o “Boró”, que era um vale para fazer compras no comércio da cidade. A situação estava tão ruim que a Companhia não tinha dinheiro nem para abastecer os seus caminhões e outros veículos. E, mais na frente, os comerciantes também não queriam mais saber do “Boró”. Eu achei que tudo ia acabar”.

O velho trabalhador garante que a CVRD só não quebrou devido à intervenção de um improvável anjo da guarda. “O dr Pedro Guerra salvou a Vale. Ele vendeu suas ações da fábrica de tecidos da Pedreira. Ganhou uma boa grana. Então, emprestou parte desse dinheiro para a Companhia. Com isso, a Vale pagou os salários atrasados. Pedro Guerra também garantiu o pagamento dos fornecedores de gasolina. Ele foi uma espécie de avalista. Graças a dr Pedro, a Vale se recuperou”, reconhece o velho empregado da empresa.

E sr Geraldo enxergou as mãos de Deus no destino da mineradora. “Depois dessa dificuldade, a Vale só cresceu. A empresa melhorou bastante depois da Segunda Guerra Mundial. Eu creio que Deus sempre ajudou muito. Eu acho que Deus escolheu a Vale para vir pra nossa cidade, e Deus escolheu esse povo para conviver com ela. A população de Itabira sempre rezou muito para a Companhia ir pra frente”, concluiu Geraldo Camilo Marques, que trabalhou na CVRD por 35 anos, dois meses e 11 dias.

Ele se aposentou em 16 de setembro de 1977. Encerrou a sua trajetória exercendo a função de Auxiliar de Serviços. O seu último local de trabalho foi o laboratório de química da Oficina Centralizada do Cauê.

PS: a fotografia de antigos trabalhadores, na Mina do Cauê, foi extraída da rede social. Infelizmente, não consegui identificar o autor da magnífica imagem.

Fernando Silva








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