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Bom dia - Itabira, segunda, 25 de março de 2019 Hora: 08:03

ASSUNTOS GERAIS
Lá, onde o tempo parecia não avançar e o encanto da carambola
03/03/2019

Às vezes me pego a pensar. E esse momento solene, normalmente, acontece na mesa de um boteco de periferia. É sempre assim. A minha discreta companhia é uma silenciosa cerveja gelada. Aprecio muito uma boa solidão. Mas, com moderação.

Nessas ocasiões, faço um tour pela vida passada. Revisito, principalmente, a minha infância e adolescência, que já vão se perdendo na inevitável bruma do tempo. Reencontro-me com essa feliz e efervescente fase do ser. Foi a época de ouro do lugar comum, onde a gente era feliz e sequer sabia disso.

Os panos de fundo das minhas lembranças são sempre os mesmos: os casarões coloniais, as monumentais e frias igrejas barrocas, as noites misteriosas, os botequins desarrumados cheirando a cachaça, as mulheres de ocasião, as ruas íngremes e estreitas de Ouro Preto. O corajoso botequeiro, que ousava beber a pinga da antiga Vila Rica, nunca mais se esquecia do asqueroso sabor: era horrível. A única coisa desprezível na cidade.

Havia, naquela paisagem, um amigo para cada oportunidade. Alguns, efêmeros. Outros permanecem no tragicômico enredo da minha existência. Os incríveis anos 1970 bolem com o imaginário. As performances de Julian Beck e seu “Living Theatre”- nas encantadoras ladeiras- foram um dos símbolos daquela década sem igual.

As férias de fim de ano eram aguardadas com muita expectativa. Contava, então, com nove anos de idade. Passava o recesso escolar nas casas de minhas avós (materna e paterna), na zona rural. O lugarejo tem um nome bastante suave, bem romântico: Glaura, que também já foi Casa Branca. A região é maravilhosa. Ali a natureza é exuberante. Permanecia nesse paraíso durante dois meses. Os meus parentes viviam na Pontaria. Jamais descobri a razão desse nome.

Recordo-me de um imenso gramado muito bem cuidado pela natureza, rodeado por frondosas árvores frutíferas. Ao longe despontava magnífica montanha colorida de um azul profundo. Era chamada de “Serra da Ajuda” pelos moradores. Uma humilde capela em louvor a Nossa Senhora das Mercês e um tosco cruzeiro de madeira completavam o bucólico cenário. Lá o tempo parecia não correr.

As brincadeiras, nem tão infantis, não tinham hora para acabar. Não faltava oportunidade pra escapar com as meninas para o bambual, atrás da capela. Nesse “esconderijo”, descobri a sutil diferença entre mim e elas. O “trem” delas era muito esquisito. Parecia o fruto da caramboleira do quintal de minha avó, mãe de pai. Aquela visão exótica provocava formigamentos na região abaixo da linha do equador. Mas não sabia o que fazer. Algumas férias depois, descobri que o sentido prático de tudo era botar aquilo naquilo (O negócio era mais pragmatismo e menos lero-lero). Estava descoberta a pólvora.

As noites de Glaura eram de intensa magia. Nunca mais vi um céu como aquele. Milhões de estrelas acotovelavam-se , enquanto incontáveis pirilampos faziam evoluções na escuridão. A fraca iluminação artificial- que mais se assemelhava a uma lamparina dependurada num poste- contribuía para o espetáculo esplêndido.

Certa vez percebi quando um casal, em meio à penumbra, esgueirou-se para a parte posterior da capela. Persegui sorrateiramente os dois, atitude de menino sapeca. E aí ficou escancarado o aspecto democrático do ato: em Casa Branca, quase todo o mundo gostava de praticar o profano atrás do sacro.

Fernando Silva

 

 







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