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Bom dia - Itabira, segunda, 19 de agosto de 2019 Hora: 08:08

COLUNISTAS
O descomissionamento de barragens pode provocar outra grande tragédia
10/02/2019

Fernando Silva

Descomissionamento? O que significa esse palavrão? Na forma, nada. Na etimologia, idem. A princípio, a expressão acaciana não esclarece muita coisa. Não justifica bulhufas. Mas essa invenção linguística tem lá sua razão de ser. Ela é uma ferramenta dissimuladora para se sair pela tangente em momentos de apuros. E, pior: eu sempre detestei trigonometria. Afinal, na hora H, no instante da engabelação popular, normalmente aparece um neologismo para desviar a atenção. E o povo, de maneira geral, se encanta com sentenças rocambolescas (como essa)

Muitos políticos atingiram o nirvana fazendo um discurso recheado de palavreados difusos e incompreensíveis. O Brasil, dessa forma, virou uma fábrica de Odoricos Pagraguaçu, aquele delicioso personagem de Dias Gomes, que se comunicava por meio de um português exótico. Descomissionamento de barragens? O que é isso, cara pálida? Não seria melhor grafar demolição de barragens? Acho que esses depósitos de rejeitos, arcaicos e perigosos, merecem mesmo é uma destruição completa. Então, ficamos assim: descomissionamento é a eliminação radical de velhas barragens.

O inusitado vocábulo ganhou os holofotes da mídia via presidente da Vale. O executivo da antiga estatal foi o primeiro a pronunciar publicamente o termo. A empresa estava sob contundente pressão. A mineradora sofria um pesado bombardeio da opinião pública, imprensa, políticos, ONGs, atores da paisagem internacional e contumazes oportunistas de plantão. Foi nessa atmosfera de pânico que o discreto Fabio Schvartsman entrou em cena. Cercado por microfones, o mandarim da multinacional tupiniquim disparou: “Vamos fazer o descomissionamento de todas as barragens da Vale”.

O homem estava lívido e tenso. E muito mais lívido e tenso fiquei eu depois de ouvir o disparate. No cair das fichas, descobri que uma grave catástrofe socioeconômica pairava sobre Itabira. Era a iminência de mais uma tragédia. Dessa vez, anunciada com antecedência. E esse meu temor tinha razão de ser. Para acabar totalmente com Pontal e Itabiruçu são necessários quatro anos de trabalhos intensos.

Durante esse período, a cadeia produtiva ficaria totalmente inativa. Não funcionariam os equipamentos das minas. O beneficiamento de minério pararia e, consequentemente, cessaria o transporte de produtos para os portos. A consequência desse contexto atende pelo nome “caos absoluto”.

Hoje, cerca de 70% da arrecadação do município vêm da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CEFEM). Mais claramente: esse “imposto” só entra nos cofres públicos quando a mineradora explora, trata e exporta. A estagnação de um quadriênio, portanto, provocaria a maior tragédia social da história da terra do Poeta Maior.

Confira o tamanho da encrenca: de cara, a Vale promoveria um festival de demissões em massa (mesmo que oficialmente a mineradora negue isso). Ato contínuo. A prefeitura não teria como bancar a folha de pagamento dos servidores. A administração pública muito menos conseguiria manter a estrutura de funcionamento do munícipio. Haveria um colapso na saúde, educação e assistência social. Você descobriria- dentre outras coisas- que aquele buraco da sua rua é bem mais embaixo. O comércio também entraria numa fase de retração. E tome mais desempregos. Pequenas firmas prestadoras de serviços fechariam as portas. Haja espaço para tão imensa leva de desocupados.

Resumo da ópera: o processo de exaustão das minas, previsto para daqui a nove anos, seria antecipado para agora, súbito. O descomissionamento, enfim, é um tiro à queima roupa. Um dia depois da ameaça de Schvartsman, a direção da Vale mandou avisar: “Itabira não está na lista fúnebre”. Foi um alívio momentâneo. As principais barragens de Itabira não serão descomissionadas? Ah, tá. Então, tá bom. Desculpe-me por esse texto ficcional.








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