Especialista revela erros comuns no tratamento de dor nas costas, explica quando usar calor ou frio e orienta sobre a escolha correta de analgésicos
Itatiaia

Especialista faz alerta sobre uso de medicamento • Pixabay
Duas em cada três pessoas enfrentarão dor nas costas em algum momento da vida. O que muitos não sabem é que a escolha errada do medicamento pode agravar o problema, especialmente quando se opta por doses mais altas sem necessidade real.
Noemí Insua, farmacêutica especializada em Ortopedia e vocal do Colegio Oficial de Farmacéuticos da Corunha, recebe diariamente consultas sobre esse tipo de desconforto. Sua experiência revela padrões de erro no autotratamento e oferece orientações práticas sobre como lidar com o problema de forma mais segura e eficaz.
Por que ibuprofeno 600 não é sempre a melhor escolha
A crença de que doses mais altas funcionam mais rápido leva muitas pessoas a preferirem o ibuprofeno de 600 miligramas. Segundo Insua, essa é uma das escolhas mais equivocadas no tratamento da dor.
“O ibuprofeno de 600 não vai acalmar a dor mais rápido e faz mais mal ao estômago”, explica a farmacêutica. Para dores leves ou moderadas, a dosagem de 600 miligramas não oferece benefício adicional, apenas aumenta o risco de lesões gástricas.
O anti-inflamatório é gastrolesivo por natureza. Usar uma dose superior à necessária significa expor o estômago a danos desnecessários sem ganho terapêutico correspondente.
Quando escolher ibuprofeno e quando optar por paracetamol
A decisão entre paracetamol e ibuprofeno depende do tipo de dor. Nem todos os desconfortos nas costas têm a mesma origem, e o tratamento precisa considerar essa diferença.
Quando existe componente inflamatório – como no caso de hérnias -, o ibuprofeno é mais adequado. “O paracetamol não reduz a inflamação, que é, às vezes, a causa da dor”, esclarece Insua.
Já o paracetamol atua apenas como analgésico, sem efeito anti-inflamatório. A vantagem é que apresenta menos efeitos colaterais e pode ser usado por pessoas que não toleram anti-inflamatórios.
Pacientes anticoagulados ou polimedicados precisam de avaliação criteriosa antes de usar ibuprofeno. Nesses casos, a farmacêutica recomenda consulta prévia para avaliar riscos e interações medicamentosas.
Tratamentos locais como alternativa aos medicamentos orais
Cremes, géis e pomadas de aplicação local oferecem alternativa útil para quem não pode ou não deve tomar medicamentos por via oral. Idosos e gestantes se beneficiam especialmente dessa opção.
Esses produtos contêm princípios ativos que agem diretamente na área dolorida. A aplicação localizada reduz o risco de efeitos sistêmicos indesejados.
Patches térmicos funcionam particularmente bem quando há contratura ou componente muscular. O calor que emitem promove vasodilatação na região, gerando alívio da dor.
Como funcionam os patches de calor e anti-inflamatórios
Existem dois tipos principais de patches para dor nas costas: os térmicos e os anti-inflamatórios. Cada um atua por mecanismo diferente.
Os patches térmicos contêm uma reação química que produz calor quando aplicados sobre a pele. Esse calor provoca vasodilatação local, que gera efeito analgésico.
Já os patches anti-inflamatórios liberam gradualmente compostos anti-inflamatórios por via transdérmica. O efeito é similar ao das cremes, mas com liberação controlada ao longo do tempo.
Ambas as opções funcionam melhor quando a dor está localizada. “Se está generalizado em toda a coluna, não costuma ser suficiente”, adverte a farmacêutica.
Quando usar frio e quando aplicar calor na dor de costas
A escolha entre frio e calor depende da fase e do tipo de lesão. Aplicar o recurso errado pode não trazer benefício ou até piorar o quadro.
O frio atua como anti-inflamatório natural e deve ser usado nas primeiras 24 horas após lesões agudas – como quedas ou entorses. Nessa fase inicial, a inflamação causa grande parte do desconforto.
Géis frios vendidos em farmácias oferecem praticidade, mas bolsas de gelo também funcionam. A ressalva é proteger a pele com um tecido, pois o frio extremo pode causar queimaduras.
O calor funciona melhor em contraturas musculares e dores crônicas. “É importante que seja um calor seco”, ressalta Insua. O calor úmido não apresenta a mesma eficácia. Bolsas de sementes aquecidas ou tecido passado com ferro podem proporcionar o alívio necessário.
Atividade física versus repouso absoluto no tratamento
A orientação moderna sobre dor nas costas desafia a crença antiga de que repouso total é sempre necessário. Manter-se ativo dentro do possível traz mais benefícios que a imobilização completa.
Insua recomenda manter atividade física normal sempre que tolerável, evitando apenas esforços extremos que provoquem dor intensa. Caminhar ou fazer alguma atividade para preservar a musculatura ativa funciona como proteção.
O repouso absoluto pode ser indicado em situações pontuais, como pinçamentos agudos. Mas essa é uma orientação médica específica para casos graves.
Em dores leves ou moderadas – comuns na vida moderna devido a posturas inadequadas no trabalho -, o sedentarismo piora o quadro. Músculos não exercitados perdem tônus, dificultando a recuperação posterior.
Produtos ortopédicos e faixas de proteção
Produtos ortopédicos podem auxiliar em casos específicos, mas sua indicação deve ser personalizada. Nem todas as situações de dor se beneficiam desses recursos.
Existem produtos específicos para entorses, dor lombar ou proteção durante exercícios com carga. Alguns atuam preventivamente, protegendo a região durante atividades de risco.
A farmacêutica alerta para um efeito contraditório: ao proteger demais uma área, a pessoa pode se sentir encorajada a exigir mais dela. “Se te dói um pé e te pões uma tornozeleira, vais poder a lo mejor caminhar um pouquinho”.
Esse estímulo adicional nem sempre é adequado. A decisão sobre usar produtos ortopédicos precisa considerar o caso individual, não seguir uma regra geral.
Vitaminas do complexo B para dor lombar crônica
Pacientes com lombalgia crônica podem se beneficiar de um tratamento complementar pouco conhecido: as vitaminas do grupo B.
O complexo B1, B6 e B12 atua em nível neurológico, oferecendo proteção ao sistema nervoso. Essas vitaminas fortalecem a região afetada e contribuem para melhora gradual.
Insua esclarece que não se trata de analgesia imediata. “Não é algo que podes tomar se te dói a espalda hoje, não é que te vá a calmar”. O efeito é de fortalecimento e proteção a longo prazo.
Essa abordagem se destina especificamente a quem sofre com dores persistentes, não para episódios pontuais.
Erros frequentes no autotratamento da dor nas costas
O principal erro identificado pela farmacêutica é seguir conselhos de terceiros sem avaliação adequada. “O que le foi bem a uma pessoa não tem por qué servirle a outra”.
Cada dor tem características próprias e exige tratamento individualizado. A intensidade, localização, duração e sintomas associados variam significativamente entre casos.
Outro equívoco comum é a crença de que medicamentos mais concentrados funcionam melhor. Como já explicado, o ibuprofeno 600 não acelera o alívio em dores leves ou moderadas.
A tendência de ocultar sintomas com analgesia também preocupa. Quando o medicamento mascara sinais de problemas mais sérios, o diagnóstico correto pode ser retardado.
Quando procurar atendimento médico para dor nas costas
Alguns sinais indicam necessidade de avaliação profissional imediata. Ignorá-los pode permitir que problemas graves evoluam sem tratamento adequado.
Dor muito intensa que surge de forma repentina – passando de nenhum desconforto para dor forte – merece atenção médica. O mesmo vale para dor que persiste ou piora com o tempo.
Febre acompanhando a dor nas costas é sinal de alerta importante. Perda de força também justifica consulta urgente.
“Nesses casos, se o tratamos com analgesia, estamos ocultando esses sintomas”, adverte Insua. A dor pode ser sintoma de condições que exigem intervenção específica, não apenas controle do desconforto.
Prevenção através de exercícios e fortalecimento muscular
A melhor estratégia para evitar dor nas costas envolve exercícios regulares e alongamentos. A musculatura fortalecida oferece proteção natural à coluna.
Manter a atividade física previne tanto o surgimento de novos episódios quanto a cronificação de dores existentes. O sedentarismo, por outro lado, aumenta a vulnerabilidade a lesões.
A prevenção se mostra mais eficaz que o tratamento. Investir em fortalecimento muscular reduz significativamente a incidência de problemas na coluna vertebral.