Feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dificuldade para engolir e até uma perda de peso sem explicação podem parecer sintomas comuns, mas quando persistem por mais de duas semanas merecem atenção. Esses são alguns dos principais sinais do câncer de cabeça e pescoço, um grupo de doenças que, apesar de atingir milhares de brasileiros todos os anos, ainda é pouco conhecido pela população e frequentemente diagnosticado em estágios avançados.

Durante o julho Verde, campanha nacional de conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço, especialistas reforçam a necessidade de ampliar o conhecimento sobre a doença e incentivar a procura por atendimento médico diante de alterações persistentes. A informação é considerada uma das principais ferramentas para reduzir o número de diagnósticos tardios e aumentar as chances de cura.
Os números mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) reforçam a dimensão do problema. A Estimativa 2026–2028 aponta que o Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano, sendo aproximadamente 518 mil, quando excluídos os casos de câncer de pele não melanoma. Entre os homens, o câncer da cavidade oral aparece como o quinto tipo mais incidente, representando 4,8% de todos os novos casos de câncer masculino. Para cada ano do triênio, são estimados 17.190 novos casos de câncer da cavidade oral, sendo 12.260 em homens e 4.930 em mulheres. Os dados também mostram que os tumores associados ao tabagismo, como os de cavidade oral, apresentam maior incidência nas regiões Sul e Sudeste do país.
O câncer de cabeça e pescoço engloba tumores que podem surgir em diferentes regiões, como boca, língua, lábios, garganta, laringe, faringe, cavidade nasal, seios da face, glândulas salivares e tireoide. Além de representarem um risco à vida, esses tumores podem comprometer funções essenciais do organismo, como falar, respirar, mastigar e engolir, impactando diretamente a qualidade de vida dos pacientes.
Segundo o cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital Márcio Cunha, Dr. Clineu Gaspar, um dos maiores desafios no combate à doença é que os primeiros sintomas costumam ser discretos e, muitas vezes, confundidos com problemas simples, fazendo com que o paciente demore a buscar ajuda. Os tumores de cabeça e pescoço podem se apresentar de diversas formas. Os sinais mais frequentes são feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dificuldade para deglutir, perda de peso sem causa aparente e outras alterações na boca ou na garganta. Quando esses sintomas permanecem por mais de 14 ou 15 dias ou apresentam piora, é fundamental procurar um médico para uma investigação mais aprofundada, explica.
Essa demora na procura por atendimento ainda é uma realidade. De acordo com o especialista, muitos pacientes chegam aos serviços de referência com a doença em estágio avançado, seja pela falta de conhecimento sobre os sintomas, pelo medo de receber um diagnóstico de câncer ou, ainda, pelas dificuldades de acesso aos serviços especializados de saúde.
O câncer de cabeça e pescoço ainda é uma doença pouco conhecida. Muitas pessoas acreditam que aquela ferida na boca vai cicatrizar sozinha ou que a rouquidão é apenas consequência de uma gripe ou do uso excessivo da voz. Quando procuram atendimento, em muitos casos, o tumor já está mais avançado”, alerta.
Embora diversos fatores possam estar associados ao desenvolvimento da doença, a maioria deles está relacionada ao estilo de vida e pode ser modificada. O tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas continuam sendo os principais responsáveis pelos casos de câncer de cabeça e pescoço.
Segundo Dr. Clineu Gaspar, cerca de 95% dos pacientes diagnosticados apresentam histórico de tabagismo e etilismo. Quando esses dois hábitos estão associados, o risco de desenvolver a doença pode ser até 40 vezes maior em comparação às pessoas que não fumam e não consomem bebidas alcoólicas.
Outro fator que vem ganhando importância nos últimos anos é a infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), considerada atualmente uma das principais causas do câncer de orofaringe, região localizada na parte posterior da língua e da garganta. “Nos países desenvolvidos, a maioria dos tumores de orofaringe já está relacionada ao HPV. Por isso, além de abandonar o cigarro e reduzir o consumo de álcool, é importante investir em hábitos saudáveis, manter a vacinação contra o HPV conforme as recomendações e praticar sexo seguro. São atitudes que ajudam a reduzir significativamente o risco da doença”, destaca o médico.
O dentista é um importante aliado no diagnóstico precoce
Outro aspecto pouco conhecido pela população é o papel fundamental do cirurgião-dentista na identificação precoce do câncer de boca, que representa uma das formas mais frequentes da doença, principalmente entre os homens.
Durante as consultas de rotina, o dentista realiza uma avaliação detalhada de toda a cavidade oral e pode identificar alterações suspeitas antes mesmo que elas provoquem sintomas importantes. “O diagnóstico do câncer de boca frequentemente começa no consultório odontológico. O dentista observa lesões que muitas vezes passam despercebidas pelo paciente, realiza a biópsia quando indicada e encaminha rapidamente para o serviço especializado. Por isso, manter consultas periódicas com o dentista é uma importante estratégia de prevenção”, reforça o especialista.
Os tumores de cabeça e pescoço acometem regiões responsáveis por funções fundamentais do organismo. Em casos avançados, o tratamento pode exigir cirurgias extensas, radioterapia e quimioterapia, podendo deixar sequelas relacionadas à fala, alimentação, deglutição, respiração e aparência física, além de impactos emocionais, sociais e profissionais.
Por outro lado, quando identificada precocemente, a doença apresenta maiores índices de cura e, na maioria dos casos, permite tratamentos menos agressivos e com menor comprometimento da qualidade de vida. “Quanto mais cedo o paciente chega ao tratamento, maiores são as chances de cura e menores serão as sequelas. O diagnóstico precoce reduz o impacto físico, funcional e emocional da doença e oferece melhores resultados para o paciente”, conclui o Dr. Clineu Gaspar.
Neste Julho Verde, o principal alerta é para que a população conheça os sinais da doença e não ignore alterações persistentes na boca, garganta ou pescoço. A adoção de hábitos saudáveis, a interrupção do tabagismo, a redução do consumo de álcool, a prevenção da infecção pelo HPV e as consultas regulares com médicos e dentistas são medidas fundamentais para reduzir a incidência da doença e aumentar as chances de um diagnóstico precoce, que continua sendo o principal aliado na luta contra o câncer de cabeça e pescoço.