Três pacientes foram mortos na UTI de um hospital privado. A suspeita é de que três técnicos tenham provocado os óbitos intencionalmente
João Paulo NunesFelipe Machado/Metrópoles

A Polícia Civil do Distrito Federal investiga pelo menos 20 laudos de mortes em hospitais do Distrito Federal após homicídios cometidos por três técnicos de enfermagem na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF).
A PCDF irá analisar em um período de ano se houve óbitos em circunstâncias parecidas com a das três vítimas – que tiveram mortes abruptas após aplicação de uma substância letal.
O Metrópoles apurou que as vítimas do trio de profissionais de saúde são o servidor da Companhia de Abastecimento de Água e Esgoto (Caesb) João Clemente Pereira, de 63 anos; o servidor dos Correios Marcos Moreira, de 33, e uma professora aposentada, de 75, que ainda não teve a identidade revelada.
Segundo o delegado responsável pelo caso, Wisllei Salomão, os técnicos de enfermagem têm histórico de trabalho em hospitais particulares e públicos do Distrito Federal. A PCDF irá investigar se ocorreram homicídios nesses outros locais em que os suspeitos atuaram.
Os crimes foram cometidos por duas técnicas, de 22 e 28 anos, e um técnico de 24 anos de idade. Ainda não se sabe a identidade dos autores nem a motivação do crime.
O profissional de 24 anos era o responsável por injetar as medicações – ele cursa fisioterapia. A técnica de 28 anos também tinha histórico de trabalhar em outros hospitais. A jovem de 22 anos estava no seu primeiro trabalho.
Operação Anúbis
Nesta manhã, uma operação da Polícia Civil do DF prendeu os três técnicos de enfermagem suspeitos.
O caso foi denunciado às autoridades pelo próprio hospital, após observar circunstâncias atípicas relacionadas ao trio na UTI. “O hospital instaurou investigação, por iniciativa própria”, afirmou a instituição em nota. (confira nota completa mais abaixo).
Entenda o caso
- A primeira fase da operação foi deflagrada na manhã de 11 de janeiro, com apoio do Departamento de Polícia Especializada (DPE)
- Na ocasião, dois investigados foram presos temporariamente por ordem judicial. Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços localizados em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas, no Entorno do Distrito Federal.
- Durante as diligências, os policiais recolheram materiais considerados relevantes para a apuração, que passaram a ser analisados pelos investigadores.
- A polícia busca esclarecer a dinâmica das mortes, o papel de cada suspeito e se houve participação de outras pessoas.
- As investigações tiveram um novo avanço na última quinta-feira (15), com a deflagração da segunda fase da Operação Anúbis.
- Nessa etapa, a Polícia Civil cumpriu mais um mandado de prisão temporária contra uma investigada e realizou novas apreensões de dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
O delegado responsável pelo caso, Wisllei Salomão explicou como os suspeitos atuavam e detalhou que, em um caso específico, o técnico de enfermagem administrou um produto químico de limpeza no paciente.
“Em um dos casos, ele sugou um desinfetante no quarto de um paciente com a seringa e aplicou ao menos 10 vezes no paciente”, afirmou o delegado.
As apurações fazem parte da Operação Anúbis, conduzida pela Coordenação de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa (CHPP), e apontam que os investigados teriam utilizado uma substância aplicada diretamente na veia das vítimas.
A substância, quando administrada fora de protocolos médicos, pode causar parada cardíaca em poucos minutos.
Fontes ligadas à investigação afirmam que o uso do composto químico chama atenção dos investigadores por se tratar de uma substância que pode levar à morte sem deixar sinais evidentes em um primeiro momento, o que dificulta a identificação da causa real do óbito e pode simular morte natural ou complicações clínicas.
Confira a nota do Hospital Anchieta, na íntegra:
“O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.
O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.
O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a Justiça”.
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