Delação pode ser ponto chave nas investigações da cadeia de comando e caminho do dinheiro no INSS
Madu Toledo/Metrópoles

O empresário Maurício Camisotti, apontado como um dos líderes do esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), foi o primeiro a firmar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal (PF) e confessar a existência das fraudes. A informação foi confirmada pelo Metrópoles nessa quinta-feira (9/4).
O lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, o ex-procurador-geral do Instituto Virgílio Oliveira Filho e o ex-diretor de Benefícios André Fidelis também negociam acordos de colaboração.
Camisotti está preso de forma preventiva desde setembro. Inicialmente, o empresário ficou detido na Penitenciária II de Guarulhos (SP), mas, com o avanço das tratativas de delação, foi transferido em março para a Superintendência da Polícia Federal em São Paulo.
As negociações foram conduzidas pelo advogado Celso Villardi, que também fez a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no processo da tentativa de golpe em 2022.
Dono de empresas do setor de seguros e planos de saúde, Camisotti já foi ouvido pela PF. O depoimento foi encaminhado pela corporação ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça para análise, assim como os termos do acordo. O ministro deverá avaliar a legalidade e voluntariedade da colaboração.
A defesa do empresário espera que a delação possa abrir caminho para a concessão de prisão domiciliar. Procurados pela reportagem, os advogados do empresário não se manifestaram.
O que esperar da delação?
A delação de Camisotti deve abrir uma nova fase das investigações e ampliar o escândalo envolvendo fraudes no INSS.
Apontado como articulador central do esquema, ele teria condições de detalhar o funcionamento da estrutura, indicando como os descontos indevidos eram inseridos nos benefícios e quais entidades eram utilizadas para viabilizar as cobranças.
A expectativa é de que o acordo ainda ajude a identificar servidores e intermediários que atuavam dentro e fora do Instituto Nacional do Seguro Social, além de esclarecer o papel de operadores como o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes.
Outro foco considerado estratégico é o rastreamento do fluxo financeiro do esquema, incluindo o destino dos recursos e o eventual uso de empresas de fachada e terceiros.
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Articulador central
Segundo a investigação da PF, o esquema operava a partir de entidades que se apresentavam como associações legítimas de aposentados, mas eram usadas para viabilizar cobranças indevidas em larga escala.
Aposentados e pensionistas eram incluídos como filiados sem consentimento — com uso de dados pessoais, assinaturas forjadas ou autorizações genéricas — e, a partir disso, passavam a ter mensalidades descontadas diretamente dos benefícios pagos pelo INSS.
Camisotti controlava três entidades: a Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), a União dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Unsbras) e o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap), que tinham como dirigentes oficiais funcionários e parentes de executivos do grupo de empresas do próprio empresário.
Juntas, as entidades teriam faturado R$ 580 milhões apenas no último ano. O total do montante pode chegar a R$ 1 bilhão, quando analisado desde 2021.
Entre as pessoas ligadas a Camisotti listadas pela PF, está, por exemplo, Maria Inês Batista de Almeida, que presidiu a Ambec entre 2023 e 2024. A mulher, que se apresenta como auxiliar de dentista em um documento apresentado à Justiça, foi identificada com faxineira de empresas de Maurício.
Primos, sobrinhos, uma irmã e um ex-cunhado também aparecem como sócios de empresas e associações ligadas ao grupo.
Quem é Maurício Camisotti
- Camisotti é empresário do setor de seguros e planos de saúde.
- Ele foi preso em 12 de setembro de 2025, em operação da Polícia Federal (PF).
- Na investigação, ele foi identificado como sócio oculto de uma organização e beneficiário de fraudes previdenciárias.
- As três entidades controladas por ele faturaram mais de R$ 1 bilhão desde 2021.
- Somente no último ano, o faturamento dessas entidades somou R$ 580 milhões.
- Todas as sedes das entidades investigadas estão situadas em escritórios comerciais em São Paulo.
Caso revelado
O escândalo do INSS foi revelado pelo Metrópoles em uma série de reportagens publicadas a partir de dezembro de 2023. Três meses depois, o portal mostrou que a arrecadação das entidades com descontos de mensalidade de aposentados havia disparado, chegando a R$ 2 bilhões em um ano, enquanto as associações respondiam a milhares de processos por fraude nas filiações de segurados.
As reportagens do Metrópoles levaram à abertura de inquérito pela Polícia Federal (PF) e abasteceram as apurações da Controladoria-Geral da União (CGU). Ao todo, 38 matérias do portal foram listadas pela PF na representação que deu origem à Operação Sem Desconto, deflagrada no dia 23 de abril do ano passado e que culminou nas demissões do presidente do INSS e do ministro da Previdência, Carlos Lupi.
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